terça-feira, 6 de junho de 2017

OS CARTAZES DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

Aproximam-se as eleições autárquicas. Acelera o regime de funcionamento do campo político. Aparecem os primeiros cartazes, ou não vivêssemos na civilização da imagem. Nela, o cartaz, meio de comunicação por excelência, ocupa um lugar especial enquanto elemento gráfico.

Dos cartazes já colocados na Palhaça, um do Partido Social Democrata e outro do movimento Unidos por Oliveira do Bairro (UPOB) merecem a nossa reflexão. Nem um nem outro parecem suficientemente conseguidos. Em nenhum deles as regras básicas de comunicação parecem cumprir o seu objectivo essencial: uma descodificação da mensagem pelo receptor, capaz de ir ao encontro daquilo que o emissor pretendeu transmitir.

Comecemos pelo cartaz do PSD, que nos apresenta a seguinte frase: “A confiança em quem se conhece”. Ora quem a população da Palhaça conhece à frente dos destinos da freguesia, nos últimos oito anos, é Manuel Augusto Martins. A tendência é para se evocar o passado recente e não o passado mais remoto, embora em qualquer dos casos só possamos recordar partes do que já passou. Podemos recordar o passado mais antigo, mas a luz que nele incide não alcança tudo, há uma parte que pertence já ao mundo das trevas. Acontece que Manuel Augusto Martins é o candidato do UPOB à Junta de Freguesia da Palhaça, depois de ter desempenhado essas funções ao serviço do PSD.

O candidato do PSD – Manuel Carvalho – também já foi Presidente de Junta e nem sequer está em causa a sua dedicação ao serviço da freguesia. Acontece que a marcha do tempo é inexorável, na medida em que há uma incessante mudança do presente em passado. Ao fim de oito anos sem o protagonismo que teve enquanto gestor autárquico, deixou de estar iluminado pelos holofotes da publicidade e, quando assim acontece, começa a tecer-se o inevitável e por vezes injusto manto do esquecimento. “A confiança em quem se conhece” parece não surtir o efeito desejado: remete mais para aquilo que o PSD hoje rejeita do que para aquilo que lhe interessa promover.

Passemos ao cartaz do UPOB, onde as coisas parecem ser ainda mais complicadas. O cartaz apresenta-nos o topónimo Palhaça com o texto invertido. Já há quem fale, com algum desagrado, em “Palhaça do avesso” e em “Palhaça de pernas para o ar”. E nestas coisas, sabemos bem, o bairrismo conta muito, o bairrismo ainda é o que era.

O efeito visual deste cartaz até é conseguido, pois permite chamar a atenção e provocar algum espanto. E também faz passar a ideia positiva de que o UPOB quer virar a página, mudar as coisas para melhor. Mas o problema não é esse. O problema é que um cartaz bem concebido – e, nessa medida, bem conseguido – não é só o que consegue captar a atenção daqueles a quem se destina: é também o que transmite a informação que se pretende. E é precisamente aqui que o cartaz parece falhar. Vejamos porquê.

Em primeiro lugar, os eleitores palhacenses não têm da sua terra uma imagem de pernas para o ar. Têm dela – e os restantes munícipes do concelho também - a imagem de uma terra de gente dinâmica, progressiva, que se desmultiplica em actividades e não regateia esforços para a tornar cada vez mais apetecível. Uma terra com uma sala de visitas – que é a Praça de S. Pedro – sempre embelezada e apreciada pelos forasteiros, cada vez mais a fervilhar em actividades comercias e de restauração; uma terra com duas feiras mensais que continuam a resistir aos cânticos de sereia da modernidade que desagua nos supermercados, hipermercados e outras superfícies comerciais; uma terra que conta com o envolvimento empenhado da sua Igreja e da comunidade local e é capaz de nos brindar com a belíssima representação da Paixão de Cristo; uma terra que preserva os seus correios, o serviço local de saúde e agências bancárias, instala o pólo de leitura, assegura o acolhimento dos mais novos e dos mais velhos nas suas instituições de solidariedade social e possui uma zona industrial em expansão; uma terra que conta com o dinamismo das suas associações (Grupo de Escuteiros, ADREP, Grupo de Cantares) e que promove actividades tão variadas como teatro, quinzena cultural, cortejo dos reis, marchas populares, festival da canção e outras mais), uma terra destas não é uma terra de pernas para o ar. Manifestar intenção de fazer melhor é louvável, mas esse desejo não pode suprimir o mérito do que já foi feito e muito menos de quem o fez.

Em segundo lugar, transmitir a ideia de que a Palhaça está de pernas para o ar e que o UPOB se propõe inverter esse ciclo, pode suscitar, nos eleitores, uma reflexão sobre as duas seguintes hipóteses:

Primeira hipótese:  a Palhaça já estava de pernas para o ar quando, há oito anos, Manuel Augusto Martins assumiu os destinos da freguesia. A ser esta hipótese verdadeira, então forçoso é concluir que durante os últimos oito anos do seu mandato o actual candidato do UPOB se mostrou incapaz de inverter a situação.

Segunda hipótese: a Palhaça ficou de pernas para o ar durante a gestão de Manuel Augusto Martins, o que, se fosse verdade, em nada abonaria a favor da sua capacidade para gerir os destinos da freguesia.


Dito isto, pode concluir-se que nenhum dos cartazes aqui analisados difunde uma mensagem publicitária inspiradora ou motivadora. Qualquer cartaz em que as pessoas não entendem o que se pretende comunicar, ou em que o mesmo provoca o efeito contrário do pretendido, será sempre um cartaz inútil.

quinta-feira, 30 de março de 2017

AUTÁRQUICAS EM OLIVEIRA DO BAIRRO: PRENÚNCIOS DE UMA CAMPANHA ALEGRE

Era de prever: com o aproximar das eleições autárquicas, o recém-criado movimento UPOB (Unidos Por Oliveira do Bairro) teria o seu baptismo de fogo. Os movimentos de cidadãos – ora encabeçados por independentes, ora por quem já teve uma filiação partidária – têm muito a ver com a insatisfação contra o funcionamento dos partidos políticos e os seus processos de escolha de candidatos. Por isso, há cada vez mais cidadãos que à revelia dos partidos se organizam para resolver os problemas das suas comunidades. Ao fazê-lo, alargam o espectro da participação política sem que tenham de se submeter às trocas de favores e às intrigas em que se atolam muitas estruturas locais dos partidos tradicionais.

As listas sem patrocínio partidário não agradam, é bom de ver, aos que tudo têm feito para enquadrar e até monopolizar os direitos dos cidadãos. O atrevimento dos que deixam o casulo partidário e abandonam a sua zona de conforto teria que esbarrar nos que sempre olharam, com desconfiança, para qualquer proposta de refrescamento da vida autárquica. A esses convém dizer que se não há democracia sem partidos, a democracia também não se esgota neles.

E como em Oliveira do Bairro também os lobos uivam, o UPOB já teve o seu baptismo de fogo. Na edição de 23 de Março passado, o Jornal da Bairrada inseriu um texto assinado por Pedro Fontes da Costa, com o seguinte título: “Candidato da UPOB à Câmara de Oliveira do Bairro plagia Plano Estratégico do Sabugal 2025”. Assim mesmo, falando de plágio de uma forma peremptória. Só que, logo no primeiro parágrafo, o citado jornalista troca o assertivo “plagia” pela expressão mais evasiva “terá plagiado”.

Em que ficamos? Quando num título de jornal se diz, sem evasivas, que há plágio e logo a seguir se fala em eventual plágio, estão a colocar-se em causa valores básicos do jornalismo como a procura da objectividade e a busca da isenção. Se o título de um texto não bate certo com o corpo da notícia, é comum dizer-se que estamos a vender gato por lebre. É o que acontece quando o rótulo de um vinho não corresponde ao conteúdo da garrafa: estamos a defraudar as expectativas do cliente.

Mais do que uma opinião, ou uma metáfora, o rótulo de plágio que Pedro Fontes da Costa colou ao candidato Fernando Silva é uma acusação (não esqueceu, sequer, a moldura penal...) que deve ser comprovada. Ou se prova a acusação – com consequências para o visado – ou o rótulo é difamatório e tem consequências para o autor da notícia. A quem acusa incumbe o ónus da prova. Se o não fizer, então o texto do Jornal da Bairrada não terá passado de pólvora seca: fez estrondo, mas talvez poucos estragos na imagem do candidato. Ou há prova, ou tudo não terá passado da construção de um insulto que a alguém aproveita.

Para que não subsistam quaisquer dúvidas, quero desde já acrescentar que o texto de Pedro Fontes da Costa tem pelo menos um mérito: o de nos dar a conhecer que o artigo de opinião assinado por Fernando Silva, na edição de 9 de Fevereiro do mesmo jornal, não é da sua autoria. E isso não soubemos, na altura. Bastaria uma simples alusão ao Plano Estratégico do Sabugal para tudo ser diferente. Para não sermos, enquanto destinatários da sua mensagem, induzidos em erro ou enredados nos problemas da verdade ou da falsidade dos discursos produzidos.

Dito isto, vale a pena acrescentar que a facilidade com que hoje se acede aos bens culturais disponibilizados em rede levanta problemas sérios quando falamos de utilização ilícita. Como os coloca, também, quando estamos em presença de noções como “direito de autor”, “propriedade intelectual” ou “plágio”. Quando uma pessoa copia outra sem citar as fontes, para haver plágio é preciso provar que essa outra pessoa também não se inspirou em ninguém. Dito de outro modo: que o que essa pessoa escreveu ou disse é cultura em primeiro grau e não, como acontece com as anedotas, tabaco já mascado por muitas bocas.

Ora, no caso em análise, podemos ler na própria notícia do Jornal da Bairrada que Victor Cardial chama a si a propriedade intelectual do documento, quando afirma: “Fui eu que escrevi o que está no Plano Estratégico do Sabugal e dei autorização ao Eng.º Fernando Silva para publicar. E fui eu que lhe pedi para não colocar o meu nome no artigo de opinião que foi colocado no jornal”. E quando se diz que que o artigo de opinião de Fernando Silva reproduz “de forma quase integral” (sublinho o quase) duas páginas do Plano Estratégico do Sabugal, está-se a reconhecer que o texto “apresenta alguns elementos de inovação”. Ora a inovação, acrescentada ao documento inicial, também fragiliza a noção de plágio.

Para se poder falar de roubo intelectual são precisas três coisas: um objecto roubado, um ladrão e uma vítima. No caso em apreço quem é a vítima? Quem se queixou? Ninguém. O detentor da propriedade intelectual do documento apenas se justificou. Nem sequer exigiu ver o seu nome tornado público. Em vez disso, limitou-se a autorizar a utilização da sua obra.

Como era de esperar, nada disto foi suficiente para abafar as acusações de plágio. O que veio à tona, não só no Jornal da Bairrada, foi um indisfarçável azedume contra o novo movimento cívico. Ninguém se preocupou em saber se o Plano Estratégico do Sabugal está a ser bem aplicado, se está a ter sucesso, ou se pode representar uma mais-valia para o concelho de Oliveira do Bairro. Discutir ideias dá trabalho e só discute ideias quem as tem. Mais importante, para alguns, é tentar fragilizar os adversários políticos. Pouco importa se um artigo de jornal não é propriamente um trabalho académico ou se o Jornal da Bairrada está longe de poder ser considerado uma revista científica. Falta a citação, a nota de rodapé... e pronto!

Além das ideias que perfilha para o concelho, um candidato a Presidente da Câmara não está impedido de importar ou imitar modelos que no plano material ou estético enriqueçam as suas propostas. Se muitos autarcas viajassem e conhecessem o que se faz por essa Europa fora, não teríamos certamente que contemplar os mamarrachos que por aí abundam em praças, rotundas e jardins públicos. Quando as BUGA (bicicletas de utilização gratuita) apareceram em Aveiro – certamente inspiradas na Holanda, na Bélgica ou noutro país qualquer – o Presidente da Câmara incorreu em plágio por não citar a fonte da sua inspiração?

Enfim, como o discurso político é um dos que maior carga de contrabando de sentidos pode gerar, é legitimo que os eleitores locais se interroguem se alianças como a do UPOB significam amor verdadeiro aos interesses do concelho ou tão só a salvaguarda de interesses particulares. Se são ouro de lei ou apenas reflectem o brilho de falsos ouropéis. O certo é que estas candidaturas assustam, a avaliar pelos resultados de 2013.

Vai ser um ano escaldante – antecipava um dia destes a directora do Jornal da Bairrada. Pois vai. Oxalá que o aproximar das eleições autárquicas não nos devolva as cenas menos edificantes registadas há uns bons quinze anos na Assembleia Municipal do nosso concelho. Numa delas, um ilustre representante do poder local “teve que ser agarrado e aconselhado pelos colegas a sair da sala para que os ânimos arrefecessem um bocado. Uma verdadeira sessão de pancadaria esteve mesmo iminente” – pode ler-se na edição do Jornal da Bairrada de 2 de Dezembro de 2004. Talvez o UPOB ajude a refrescar as estruturas partidárias locais e a arejar um pouco mais a casa da democracia do concelho.


Até lá, convém estarmos atentos. Como acontece com Uma Campanha Alegre, de Eça de Queirós, nada nos garante que não vá ser preciso derrubar, uma ou outra vez, a “tolice de cabeça de touro”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Livro "ADREP: História de Uma Vida Exemplar" apresentado sexta-feira



Em Dezembro a Palhaça está em festa. Os 40 anos da ADREP estão a ser assinalados (desde o passado dia 3... até ao próximo dia 18) com uma série de actividades, da música ao atletismo, passando pelo teatro e pelas danças de salão. 

Não podíamos deixar de destacar neste espaço um momento relevante destas celebrações: a apresentação, nesta sexta-feira, dia 16, pelas 20h00, do livro "ADREP: História de uma Vida Exemplar", da autoria de Carlos Braga, colaborador de longa data do Palhaça Cívica e autor da monografia "Palhaça – História dos Espaços Sociais e Comunitários [séculos XIX-XX]". 

Não espelhando toda a vida da Associação, este documento histórico procura registar os tempos difíceis, mas também os momentos de glória que acabaram por transformar a ADREP, ao fim destes quarenta anos, numa das colectividades mais dinâmicas e ecléticas, enquanto referência desportiva recreativa e cultural, do concelho de Oliveira do Bairro.

"A ADREP continua a ser um organismo vivo. Para verem como ele respira, basta consultar a tábua cronológica que acompanha esta publicação. Ela mostra o seu percurso de vida, as transformações por que passou e que lhe moldaram o perfil ao longo destes quarenta anos, a galeria dos vencedores que ostenta com orgulho, o nome dos sócios fundadores, beneméritos e honorários que nunca regatearam injectar-lhe a hemoglobina do seu esforço e dos seus recursos materiais e culturais", pode ler-se na contracapa de um trabalho de pesquisa rigoroso e escrito de uma forma escorreita. 

Contamos consigo nesta sexta-feira na sede da ADREP para a apresentação do livro, com a presença do autor. 

Esta sessão solene será ainda marcada por um espectáculo de multimédia que promete fazer mexer no baú das memórias pessoais e colectivas dos presentes. Ainda nessa noite não perca a actuação da Marcha dos 40 Anos da ADREP. 



domingo, 27 de dezembro de 2015

OS RÚSTICOS VIRAM UMA ESTRELA - CONTO DE NATAL DE FREDERICO DE MOURA [1]


 O cortejo dos Reis Magos de Sorães[2] tinha larga fama nas redondezas e aglutinava sempre uma espessa multidão que afluía de todos os pontos cardeais. Os caminhos da Gândara pejavam-se de forasteiros oriundos de todos os lugares: da Tocha, de Cadima, de Murtede, de Carromeu, vinha gente de todas as idades e condições, desde as velhas de mantilha embiocada, até às cachopas de lenços garridos de ramagens e de fedelhos de palmo e meio, ranhosos até à ponta do queixo e de calças fundilhadas no posterior. Também do lado do mar vinham os gafanhões e as gafanhoas, lépidos e bailarinos nos movimentos, a quem as lombas não metiam medo. Atascando-se nos caminhos barrentos, uns, atolando-se na duna, outros, toda a gente arranjava disponibilidades e fôlego para a caminhada. E, às vezes, não faltava, mesmo, a presença de um ou outro senhor folclorista com o seu binóculo científico assestado, quando não com sua câmara fotográfica a fixar imagens.

Já coisa de um mês antes, se sentia latejar em todo o povo uma azáfama ofegante na preparação das alfaias, das indumentárias, dos cenários, e na realização dos ensaios do Auto, velho e ingénuo, que haveria de ser mastigado como núcleo de entremez.

Um talhava com umas tesouras velhas ferrugentas, coroas de rei, especiosas e profusas de bicos e recortes, num retalho de folha-de-flandres arrancado à sucata do picheleiro, ou recortava, em papelão grosso, a estrela que, depois de dourada, havia de servir de guia na caminhada para a gruta de Belém; uma rapariga costurava em cetineta vermelha ou numa colcha ramalhuda, fora de uso, mantos reais que haviam de vir a ser debruados e listados com galão de cangalheiro; um labrego pintava a purpurina de oiro os velhos arreios com que se haviam de ajaezar as montadas dos magos do Oriente.

O fim do mundo na pacatez de Sorães!

Poliam-se as trompas, baças do pó de doze meses e enodoadas de azebre, punha-se pele nova no bombo, rebentado no ano passado pela maceta impulsionada por músculos robustecidos pelo estímulo do briol, apetrechavam-se os clarinetes com palhetas novas para lhes valorizar o timbre, encordoavam-se as violas e os bandolins onde as aranhas tinham instalado tear para fazer as suas teias – e os ensaios botavam pela noite fora.



O encenador corrigia aqui os defeitos da pronúncia de uma personagem, além procurava sincronizar uma fala com a mímica que havia de a sublinhar, ou tentava pôr de acordo uma emoção com um gesto.Exigente no encornanço dos papéis, ai daquele que se engasgasse no meio de uma frase, ou esfumasse uma deixa por indecisão ou má pronúncia. Caía o Carmo e a Trindade quando o actor se mostrava rude ou desatento! E, de jumento para baixo, todos os insultos do dicionário lhe serviam, afoitando-se, mesmo, a incursões na gíria local, quando precisava de termos mais expressivos para os fazer desabar sobre as cabeças, vergadas de respeito, dos actores improvisados e transplantados da rabiça do arado para um trono real de papelão, ou arrancados do chão humoso e estercado para subtis incumbências angélicas sobre nuvens de algodão em rama.Mesmo às figuras do Presépio, cuja missão era, apenas, estar ali sem botar fala, as recomendações de compostura e de acordo com a função eram rigorosas e categóricas.Este ano, então, a coisa havia de ser figurada a preceito – ou que raios partissem os brios da comissão – e o cortejo teria que resultar de arromba. Ponto era que o dia estivesse bonito e que um sol doirado viesse dar a sua colaboração a tanto suor gasto para lubrificar os rodízios do êxito.O cortejo dos Reis era o cartaz de Sorães!



O Evangelista, o Avelino e o Domingos é que, desta feita, iriam figurar de magos do Oriente. Eram três labrostes alentados como bois, sobretudo o Avelino, que ia fazer de Rei Preto. De Herodes fazia o Laúdo, que tinha uma espantosa cara de facínora, onde uns olhos ameaçadores e ensombrados por um torus mais grosso e pesado que o do sinantropus, fuzilavam como coriscos corroborados por umas córneas injectadas.Grande trabalho deu esta última personagem ao ensaiador para conseguir desbastá-la da sua natural cortiça de estupidez, como convinha ao poder histriónico de quem, apesar de tudo, figurava um rei.Como um rinoceronte, o Laúdo investia, cego, derramando, vociferante, o seu papel, indemne às directivas que procuravam frenar-lhe, um pouco, o impulso cafreal.

O Evangelista lá deu um mago acetinado, mas de sabor incaracterístico como o capilé, e o Domingos, tem-te-não-caias, pelo menos obedecia às vozes de quem mandava e à batuta do maestro, enquanto o Avelino deu, por vocação, um Rei Preto “que só lhe faltava falar”, como dizia a Brízida.

No dia aprazado lá estava tudo a postos! Debaixo do rei Baltazar, de cara enfarruscada como um tição, o cavalo, com mais lã do que um carneiro, parecia ter a coluna vertebral selada, vergado, como estava, sob o peso da outra alimária; e os dois restantes, muito comedidos, muito senhores do seu papel, enquanto seguravam as rédeas com a mão esquerda, iam cofiando com a dextra umas incríveis barbas, baças e penteadas, feitas de rabo de burro. Atrás seguiam três sendeiros a botar figura de camelos e ajoujados sob o peso das oferendas, as mais fantásticas, as mais inverosímeis, e destinadas a fazer as vezes da ânfora do incenso, do cofre do oiro e da urna da mirra. Finalmente, estendia-se ao longo da estrada esburacada e lamacenta da aldeia um cortejo interminável de pastorinhas e pastorinhos com seus tabuleiros e canastras, com suas gaiolas e condessas, ou tangendo carneiros brancos, afogados em lã, e tímidas cabrinhas de pêlo escorrido, não contando com uns caçadores, tão hirtos que pareciam engomados, levando pendentes das trelas patos e galináceos vivos que se espanejavam esbaforidos.

Fuzilavam no centro dos tabuleiros de madeira, forrados com papéis coloridos, garrafas cintilantes de vinho branco e de jeropiga, de cujos gargalos partiam para os cantos festões de bilharacos e figos passados enfiados em arames; rescendiam as galinhas assadas, tostadas e loiras, com suas epidermes de poros arrepiados, como que esfregadas com urtigas, e berravam em bandejas de latão bolos recobertos de açúcar com decorações quase mouriscas de confeitos multicolores; sussurrava o milho amarelo nos alqueires e alvejavam toalhas, engomadas e emolduradas de renda, debaixo de leitões assados no espeto e com as maxilas cerradas num trismo sardónico sobre laranjas gritantes de cor e de acidez.



E, à cabeça das garotas, como que a corroborar o especioso dos penteados, abóboras-meninas, bilobadas como cabaças e quase rubras no seu intenso alaranjado, ou taleigos imaculados de brancura a impar de farinha pelo laço do nagalho. Tudo aquilo que de mais bizarro se possa imaginar em matéria de oferendas era conduzido para o presépio do Menino por aquele cortejo guiado pela estrela, de papelão doirado, erguida, ao alto, na ponta de uma cana, por um anjinho adornado com umas descomunais asas, profusas de rémiges, muito mais zoológicas do que as de qualquer ganso petulante e fanfarrão.



O cortejo encaminhou-se para o Presépio, armado num desvão do adro, aconchegado sob a copa espessa e acolhedora de um cedro centenário...

E, então, as régias personagens desmontaram, muito solenes, os servos descarregaram os burros, sucedâneos dos camelos, e os três Magos, dobrando os joelhos, e baixando até ao chão as coroas de lata, depuseram junto do estábulo, em vez da ânfora do incenso, o pipo grávido de vinho, em vez do cofre do oiro, o alqueire coagulado de milho doirado, e, em vez da urna da mirra, a carne de porco nacarada e enterrada em sal mais branco do que a neve pura.





O Menino Jesus, de barro, do tamanho de um menino verdadeiro, com seus olhos muito azuis e seu cabelo como estrigas, ficou estático e sereno nas palhinhas humildes, sob o bafo quente de um jumento e de uma vaca ao natural, enquanto, sobre o seu corpinho róseo, uma Virgem e um S. José de Sorães deixavam cair dos olhos, embevecidos, lágrimas de maná.

Quem olhasse de longe julgaria ter na frente o presépio de um barrista do século XVIII, com suas figurinhas de argila, onde nem sequer faltava o desbotado e a patina da policromia que se soletrava, facilmente, nas indumentárias usadas, pela quinquagésima vez, nestes cortejos de Sorães.

Mas nem tudo, naquele ano, se passou como estava escrito nas rúbricas do Auto...

Na verdade, na varanda do seu palácio de estafe, Laúdo, o façanhudo Herodes, de mãos atrás das costas, passeava, de um lado para o outro, exteriorizando uma sanha rábica, que transbordava para fora do texto e da ordenança da encenação. Os Magos não lhe traziam, como era da promessa, notícias daquele Menino que a sua tirania queria degolar para extinguir a chamazinha de justiça e liberdade que nascia para os escravos, para os pobres e para os tristes.

De vez em quando, numa agitação espasmódica, subia os três degraus do estrado para se sentar no seu trono de papelão, onde se chegavam reverentes dois servos, um com um cântaro de meio almude, outro com uma taça de lata numa bandeja, para refrescarem a secura do seu real amo. E tantas foram as vezes que a sede do Laúdo esgotou a taça, já tinta de roxo até ao pé, que os efeitos do vinho se começaram a produzir e a revelar. O semblante entrou de avinagrar-se-lhe e de endurecer, e a sua agitação a mostrar-se com evidência de mais para ser fingida. Amiúde, parava no meio do tablado e desembainhava palmo e meio de catana da sua baínha de lata. Depois, tornava a embainhá-la e carregava, ainda mais, o sobrolho em viseira, pronunciando palavras ininteligíveis. E, a certa altura, ouviu-se mesmo, com nitidez e contra a letra da peça, sair-lhe da boca avinhada uma frase que fazia dissonância:

- Do filho do meu pai nunca ninguém fez pouco; ou aqueles filhos duma cadela me trazem notícias do garoto, ou vou eu mesmo procurá-lo!...
O contra-regra interveio do lado para chamar o Laúdo ao papel, mas a resposta foi pronta:
- Deixar borrar as barbas, à frente do povo todo, é que eu não deixo, nem a fingir!

Houve risadas e dichotes na assistência. A comissão fervilhou de zelo e o próprio padre da freguesia disse qualquer coisa de xaroposo para neutralizar a fúria acética do Herodes que, apesar de tudo, continuou a remorder:
- Se queriam alguém para botar figura de bacoco, não me batessem à porta a mim; se esses reizotes de trampa não me trazem as prometidas notícias do fedelho, irei eu catá-lo, nem que seja aos quintos...

E, se bem o disse, melhor o fez. Perante o pasmo da multidão, o Laúdo deu um salto bestial abaixo do varandim, ergueu no ar a catana rebrilhante e correu, furioso, direito ao Presépio para degolar o Menino de barro.


Não foi possível encontrar razões para o deter: nem a tradição, nem o Auto, nem a autoridade do ensaiador, nem os apelos da comissão, nem as palavras mansas do padre, nem mesmo o testemunho dos Evangelhos!...

Só a força bruta de três labregos, de braços mais grossos do que gibóias, conseguiu salvar da fúria daquele Herodes de entremez o Menino-Jesus venerado pelo povo há uma carrada de anos.

Mas, esta surpresa, que veio embater contra a expectativa pacóvia da assistência, não ficou por aqui. Os filhos do Laúdo, vendo o pai agarrado por aqueles três brutamontes, foram levar-lhe o socorro que entenderam dever-lhe como filhos. Foi o rastilho para se envolver meio mundo à porrada – o que, trocado em miúdos, se traduziu num hematoma do tamanho de um ovo de galinha no coronal do rei Baltazar, em duas arquinhas partidas no rei Herodes e num beiço rachado no Anjinho da Estrela...

Por este preço logrou a Sagrada Família fugir para o Egipto, naquele Natal de Sorães...



[1] António Frederico Vieira de Moura (1909-2002). Natural de Vagos. Licenciado em Medicina e em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra. Deputado eleito pelas listas do Partido Socialista na III e IV legislaturas. Colaborador de jornais e revistas, era um conferencista e comunicador brilhante. Dele disse Miguel Torga, amigo dilecto: “ser de eleição (...) pragmático e sonhador, ácido e sentimental, solitário e convivente com horas de formiga e horas de cigarra e sempre solidário e compassivo” (Litoral, 12.04.1979).
[2] Este conto tem a particularidade de se desenrolar no extinto concelho do Couto da Vila de Sorães (actual freguesia de Santa Catarina, do concelho de Vagos) que nas Memórias Paroquiais de 1758 incluía o lugar de Bustos, parte do Sobreiro e o lugar da Barreira. Esta narrativa de Frederico de Moura foi extraída do blogue de Ricardo Esteves “Crónicas Portuguesas”. O conto está incluído em Pulso Livre, obra editada pela família do autor, com textos inéditos e outros já publicados. Está também incluído em “Natal”, edição do Instituto Luso-Fármaco, 1967.